As ondas de forte calor estão a transformar progressivamente a organização dos centros hípicos em Portugal. Perante temperaturas extremas, uma adaptação radical está em curso: as aulas deslocam-se para o final do dia, algumas vezes até às 22 horas. Esta decisão não é caprichosa, mas necessária para proteger o bem-estar dos cavalos e a segurança dos cavaleiros.
Por que os centros hípicos deslocam as aulas para a noite
Um cavalo em esforço físico sob o sol direto tem dificuldade em suportar temperaturas acima de 25-26 graus. A partir dos 30 graus ou mais, o esforço torna-se perigoso: o sistema de termorregulação do equídeo descontrola-se, aumentando consideravelmente o risco de insolação. Os centros hípicos enfrentam um dilema: cancelar as aulas ou deslocá-las para horários mais frescos.
O deslocamento de horários é a solução privilegiada. As saídas nocturnas e aulas em horário tardio permitem manter a atividade reduzindo drasticamente a exposição ao calor. Entre as 20 horas e a meia-noite, as temperaturas caem frequentemente entre 10 a 15 graus em relação à tarde. Os cavalos recuperam uma respiração normal, a transpiração elimina-se melhor, e o esforço torna-se suportável.
Esta adaptação responde também a uma obrigação moral e legal. As boas práticas de bem-estar animal recomendam desde há vários anos a suspensão da atividade intensa durante episódios de calor extremo. Os gestores que ignoram estas recomendações arriscam-se a processos por maus-tratos animal.
Medidas concretas implementadas pelos centros hípicos
Deslocamento de horários e saídas nocturnas
Os centros pioneiros começaram em 2023-2024 a oferecer períodos até às 21h, depois até às 22h. Um centro hípico no Norte, por exemplo, deslocou 60% da sua oferta de aulas para o período 19h-22h durante os três meses de verão. Os cavaleiros estranharam inicialmente, mas adaptaram-se rapidamente: os cavalos apresentam melhor desempenho, as quedas diminuem, a atmosfera torna-se mais serena.
As saídas em pista ou em pasto fazem-se agora ao anoitecer. Alguns centros oferecem «passeios noturnos» que se tornaram populares entre cavaleiros amadores. A iluminação artificial das pistas e manejos teve de ser reforçada, o que representa um investimento considerável mas indispensável.
Adaptações para descanso e hidratação dos cavalos
Além do simples deslocamento de horários, as infraestruturas evoluem. O sombreamento dos pastos torna-se prioritário: instalação de velas de sombra, plantação de árvores, criação de áreas cobertas. O acesso à água deve ser permanente e generoso. Os cavalos bebem muito mais em períodos de calor, até 50-60 litros por dia em comparação com 30 em condições normais.
A ventilação das cavalariças reforça-se também. Janelas mais amplas, ventiladores, sistemas de pulverização de arrefecimento: cada centro adapta-se de acordo com a sua arquitetura. Alguns centros investiram em sistemas automáticos de nebulização, que se ativam quando a temperatura ultrapassa os 28 graus. Os cavalos aproximam-se voluntariamente.
O descanso torna-se uma prioridade absoluta. Os cavalos fatigados pelo calor são colocados no box durante as horas mais quentes, com acesso a água fresca e feno de qualidade. Os treinos intensivos são adiados ou cancelados. A frequência de aulas por cavalo diminui em média 30%, compensada por uma melhor recuperação.
Exemplos concretos de centros que se reorganizaram
Um centro hípico na região de Lisboa tentou inicialmente manter horários habituais em 2024. Resultado: dois cavalos apresentaram sinais de stress térmico numa semana. A direção reagiu rapidamente, deslocando a totalidade das aulas entre 19h e 22h de junho a setembro. Os cavaleiros, inicialmente céticos, apreciaram a iniciativa. Os cavalos apresentam-se melhor, os cancelamentos de sessões diminuem para metade.
Um centro hípico rural no interior adotou uma abordagem híbrida: aulas regulares no final da tarde para crianças (19h-20h), depois saídas para adultos até às 22h. Mantém também dois períodos matinais muito cedo (6h30-8h) para cavaleiros motivados. Esta flexibilidade agrada tanto aos cavaleiros como aos cavalos.
Sinais de stress térmico no cavalo: o que todo o cavaleiro deve conhecer
Reconhecer o sobreaquecimento antes que se agrave
Um cavalo em perigo térmico transpira excessivamente, mesmo em repouso. As suas narinas dilatam-se, respira muito depressa (mais de 60 respirações por minuto). Os olhos ficam baços, as mucosas avermelhadas. Se observar estes sinais, cesse imediatamente o esforço, coloque o cavalo à sombra, pulverize-o com água fresca e contacte um veterinário se os sintomas persistirem.
Conselhos práticos para cavaleiros e gestores
Adaptar aulas à onda de calor exige organização prévia. Os cavaleiros devem compreender que o cancelamento ou adiamento de uma sessão não é um fracasso, mas uma proteção. Os gestores devem comunicar claramente sobre os novos horários e as razões científicas por trás desta mudança. Um boletim informativo ou um cartaz bem colocado é suficiente.
A hidratação dos cavalos deve ser rigorosamente supervisionada. Antes de uma saída, verifique que o animal bebeu. Após o esforço, ofereça pequenas quantidades de água regularmente, não de uma única gargalhada grande. Os eletrólitos (sais minerais) perdidos pela transpiração podem ser parcialmente compensados por uma alimentação adequada: beterrabas, alfafa fresca.
Os próprios cavaleiros devem permanecer vigilantes. O menos equipamento pesado possível, vestuário claro e respirável, hidratação pessoal constante. Uma sessão noturna não é uma festa: exige uma boa lâmpada frontal, vestuário refletor e concentração acrescida devido à visibilidade reduzida.
Finalmente, documentar as adaptações implementadas ajuda a preparar os anos seguintes. Que horários funcionaram melhor? Que investimento em sombreamento produziu resultados concretos? Estes dados permitirão afinar a abordagem ano após ano, num contexto em que as ondas de calor se tornam infelizmente mais frequentes e intensas.





