Um estudo realizado em cinco centros portugueses de recuperação de animais selvagens analisou 310 amostras de quatro espécies de aves e chegou a uma conclusão preocupante: 15,48% das aves continham detritos plásticos no estômago. Este valor refere-se à percentagem de aves afetadas, demonstrando a amplitude da contaminação por plástico ingerido, com uma massa média de 0,0771 g por indivíduo.
A poluição por plástico não é apenas um problema dos oceanos profundos. Nos Açores, o cagarro, uma ave marinha comum na região, é agora utilizado como bioindicador oficial da poluição por plástico flutuante. Os juvenis encontrados mortos durante a saída dos ninhos revelam uma realidade alarmante: cerca de 90% deles ingeriram partículas de plástico, incluindo aves que ainda não tinham deixado o ninho. Isto sugere que o plástico pode ser transportado pelos progenitores e fornecido juntamente com o alimento.
O cagarro como indicador oficial de poluição marinha
Em 2025, uma proposta apresentada por Portugal foi aprovada no âmbito da OSPAR — Convenção para a Proteção do Meio Marinho do Atlântico Nordeste. O cagarro passou a integrar um indicador comum de poluição por plástico flutuante na Região V, correspondente ao Atlântico Alargado. Este reconhecimento reflete a importância desta espécie como sentinela da qualidade ambiental dos nossos oceanos.
O limiar de avaliação ambiental aprovado estabelece que, no máximo, 20% dos juvenis analisados devem conter mais de quatro partículas de plástico no estômago. Esta métrica permite monitorizar a evolução da poluição marinha de forma padronizada em toda a região do Atlântico Nordeste.
Como o plástico chega aos estômagos das aves
As fontes portuguesas utilizam principalmente os termos lixo marinho, detritos plásticos, plástico ingerido e microplásticos (partículas com menos de 5 mm). O indicador D10C3 refere-se à quantidade de lixo macro e micro ingerido por espécies marinhas, permitindo uma avaliação quantificável da poluição.
As aves marinhas que se alimentam à superfície do oceano são particularmente expostas, pois é precisamente ali que flutuam os detritos. O cagarro, o albatroz e outras espécies afins confundem visualmente um pedaço de plástico colorido com alimento natural. Para os oisos em crescimento, ainda sem experiência de alimentação, o risco é ainda maior: aceitam como comida aquilo que os progenitores lhes oferecem, mesmo que contenha plástico ingerido no mar.
| Espécie | Zona em Portugal | Contaminação observada |
|---|---|---|
| Cagarro (Calonectris borealis) | Açores | 90% dos juvenis com partículas de plástico |
| Aves marinhas diversas | Cinco centros de recuperação | 15,48% com detritos no estômago |
| Aves juvenis | Áreas de nidificação | Contaminação antes de sair do ninho |
Consequências para o bem-estar das aves
Nos juvenis, os efeitos da ingestão de plástico manifestam-se de forma rápida e severa. Os progenitores, ao alimentarem os filhotes com conteúdo estomacal que inclui fragmentos de lixo marinho, transmitem inadvertidamente a contaminação. O jovem, ainda incapaz de rejeitar os detritos como alguns adultos conseguem fazer, acumula progressivamente uma carga de plástico que ocupa espaço vital no seu sistema digestivo.
Esta acumulação provoca uma falsa sensação de saciedade: a ave sente-se saciada sem ter recebido nutrientes essenciais ao seu crescimento. Enfraquece, perde peso apesar da sensação de plenitude, e nos casos mais graves, morre de desnutrição enquanto o seu estômago permanece cheio de detritos. Esta mortalidade relacionada indiretamente com a poluição por plástico fragiliza populações de aves marinhas já vulneráveis, em particular no contexto do Atlântico Nordeste.
Monitorização contínua nos Açores
A estratégia portuguesa de monitorização da poluição marinha baseia-se na análise sistemática da quantidade e composição do plástico ingerido por aves marinhas encontradas nos Açores. Esta abordagem transforma o cagarro numa ferramenta científica essencial para compreender a amplitude da contaminação oceânica.
Se aves que vivem numa região como os Açores, isolada de grandes centros urbanos, apresentam uma contaminação tão elevada de lixo marinho, isto indica que os microplásticos e detritos plásticos circulam agora em todos os padrões de correntes oceânicas do Atlântico, atingindo espécies que nunca tiveram contacto direto com uma fonte terrestre de poluição. A aprovação do indicador OSPAR reflete o compromisso de Portugal em medir, documentar e tentar reverter esta tendência preocupante.





